Você quer sentar?, ela perguntou. A senhora respondeu que não. Não seria nada demais essa cena se ela não acontecesse no metrô de Estocolmo, em plena hora de rush, com uma menina negra e uma senhora sueca. A questão aqui não tem nada a ver com o fato dela ser negra, mas com o fato de ser facilmente reconhecida como “não tipicamente sueca”. Aliás, os suecos possuem uma relação estranha com os “não suecos” pois, mesmo sem poder expressar qualquer coisa, há um sentimento generalizado de que os estrangeiros estão vindo para cá e tomando o lugar deles.

Mas o que me chamou – e muito – a atenção foi o fato de somente essa menina se prestar a oferecer o lugar. O metrô estava lotado e nenhuma outra pessoa se deu ao trabalho de ceder seu conforto para a senhora. Ninguém.

Continuei observando, de pé, até chegar o meu ponto de descida. Me posicionei perto da menina para poder descer e, mais uma vez, ela me ofereceu o lugar dela. Como uma pessoa educada deveria fazer. Como um ser humano deveria ser. Agradeci e expliquei que já ia descer no próximo ponto e fiquei lá, admirando, enquanto a menina calmamente fazia um rabo de cavalo. Quando acabou, olhou pra mim e eu soltei:

– You are pretty*

Mal sabia ela que não era do rabo de cavalo que eu estava falando.

 

*Em inglês, o verbo “are” pode se referir a “ser” ou “estar”. Ou seja, “você é bonita” ou “você está bonita”.