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Texto da Ju Dacoregio, que vem de SC direto para o Luluzinha Camp.

Ela queria viver num mundo onde as mulheres não fossem pedaços de carne e onde esses pedaços de carne não fossem vendidos nas ruas e nas bancas de revista. Ela queria viver num mundo onde as mais velhas não precisassem olhar com inveja para as mais novas. Ela queria viver num mundo onde nenhuma mulher precisasse temer a perda do desejo de seu amado com a chegada das rugas e dos cabelos brancos. Ela queria viver num mundo onde as mulheres fossem deusas, independente da circunferência de suas cinturas.

Mas no mundo em que ela vivia, mulheres mutilavam seus próprios genitais em nome da estética e chamavam isso de cirurgia íntima. No mundo em que ela vivia, as mulheres usavam seus corpos como instrumentos de poder e afronta, umas sempre tentando serem superiores às outras. Numa competição em que a pele mais lisa, o rosto mais angelical, a menor quantidade de anos vividos sempre saía vitoriosa e isso evoluía tristemente a ponto de gerar absurdos como homens adultos desejando meninas impúberes. Ela vivia num mundo em que garotas de 13 anos eram usadas para provocar os anseios de consumo das pessoas.

Ela queria viver num mundo diferente. Num mundo em que mulheres não fossem inimigas em potencial. Por isso começou a sorrir mais, sem medo de evidenciar as ruguinhas já existentes. Passou a retocar menos a maquiagem e a entrar correndo no mar com seus filhos, mesmo após ter feito uma escova. Decidiu nunca mais mentir ou esconder a idade, nem procurar defeitos minúsculos no corpo das outras mulheres e no seu próprio. Fez as pazes com o espelho e com todas as outras mulheres do mundo. Passou a gastar mais dinheiro com livros do que com tratamentos estéticos. Deixava sua filha subir em árvores, elogiava mais o talento para a matemática da menina do que seus lindos olhinhos azuis. Ela queria viver num mundo em que as TODAS as mulheres fossem deusas. Por isso resolveu começar pela sua casa.