Aborto, de novo e sempre, legal para todas

A primeira coisa que me aconteceu hoje foi encontrar a matéria da TPM sobre professoras que foram desligadas de universidades por defenderem a legalização do aborto. [Você pode conferir clicando no link: http://revistatrip.uol.com.br/tpm/professoras-defendem-a-descriminalizacao-do-aborto-e-sao-desligadas-de-universidades]

Eu parei de escrever pela legalização do aborto há muito tempo porque, depois de um post contra o Estatuto do Nascituro no finado blog 300 – que nunca parou de receber comentários pra lá de esdrúxulos – eu traumatizei.

No Brasil, além das questões estruturais e próprias da política neste momento específico, há uma cegueira e um silêncio eterno a respeito não só de nós, mulheres, mas também sobre as nossas questões.

Em recentes audiências públicas sobre o assunto, tive o desprazer de ver mulheres falando tanta babosa que a gente poderia fazer uma fábrica de hidratante sem medo.

O raciocínio é simples:

Todo indivíduo é igual perante a lei.

O Estado é laico – portanto não é sujeito a leis religiosas e a fé é livre.

A saúde pública é direito de todos e dever do Estado.

É também dever do Estado tratar e cuidar de todos os seus cidadãos de forma igual.

Isso é Constituição, certo? Vale para todo mundo? Não.

Então porque as mulheres não podem fazer laqueadura a qualquer momento de sua vida? (Não, não podemos, os médicos não fazem, se recusam mesmo que a pobre implore ou peça de joelhos, mesmo que cumpra a regra: maior de 25 anos OU dois fihos).

Por que diabos somos vítimas de violência obstétrica o tempo todo?

Por que somos obrigadas a ter filhos?

O Brasil tem uma montanha de leis que se sobrepõem à Constituição – que garante igualdade de direitos – e impedem as mulheres de dizerem o que querem para si e como querem. Vai daí que mesmo mulheres que legalmente têm direito ao aborto (em caso de estupro, risco à vida ou impossibilidade de sobrevivência do feto já é legal) não conseguem fazer o procedimento na rede pública.

Se você duvida, veja (ou reveja) o sofrimento de Severina.

Existem, hoje, não só projetos de lei que propõem exatamente a legalização. Existem centenas de projetos também que estão à caça dos pouquíssimos direitos que a mulher hoje tem de dizer o que quer ou não em seu corpo. Ninguém é obrigada a seguir grávida. Um punhado de células não pode se sobrepor à vontade de uma mulher adulta – ela, sim, cidadã. Isso é tão mínimo, tão básico, que chega a ser absurdo ainda termos que discutir o assunto.

Mas temos que falar. E as professoras foram demitidas exatamente porque falaram. Porque fazem pesquisas e conversam sobre isso com seus alunos.

Outro dia, num táxi, usei outro raciocínio simples com pessoa religiosa – e parece que funcionou. Porque eu tenho que seguir o que você acha? É muito simples: numa democracia cada um faz o que acha, de acordo com suas crenças. Exatamente por isso é direito da mulher brasileira decidir que não quer ser mãe. Porque ela não quer e ponto. Sem justificativa, sem prestar contas a quem quer que seja. Se a pessoa é religiosa e acha que é errado, que não faça.

A crença é livre – e você pode ser da umbanda, do candomblé ou da corrente evangélica que escolher, ninguém mete a colher, certo?

O corpo é pessoal e intransferível, bem como a vida. O impacto de um filho é algo absolutamente irreversível. Criança exige atenção, cuidado, dedicação absoluta – e não é por um tempo, é pelo resto da vida. As mulheres sabem disso, sabem que, em geral, não contam com companheiros para dividir a carga. Muitas de nós querem sim ter filhos – e estamos aqui prontas para ajudar todas a conquistar seu desejo da melhor forma. E quem não quer?

A criminalização das cidadãs brasileiras que não querem filhos (ou não querem este filho) é um absurdo. Temos o direito de resolver quando, como e se queremos filhos. Não somos chocadeiras (nem objetos).

Com a epidemia de Zika à solta o tema voltou. E ninguém menos que Dráuzio Varella diz tudo o que outros não podem (ou devem, por medo de demissão e outro tipo de retaliação) http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/02/160201_drauzio_aborto_rs

Foto: Unsplash, Mario Azzi

#PrecisamosFalarsobreAborto

precisamosfalarsobreaborto

A revista TPM convocou a ação nas redes sociais – em tese é pra gente postar foto com a hashtag do título.

Aqui no LuluzinhaCamp a gente sempre lutou pela legalização do aborto. Porque quem morre é a mulher pobre. Porque justo é que todas nós tenhamos pleno direito e controle de nossos corpos. Aborto ser crime é tipo assim dizer que você, menina, moça, mulher, só serve pra ter filho. E não tem plenos poderes sobre o seu corpitcho.

Retrospectiva de posts sobre aborto no LuluzinhaCamp:

Aborto legal para todas nós

Aborto: você não precisa ser a favor para apoiar a legalização

5 Mitos sobre a legalização do Aborto

Pela dignidade da mulher e contra o Estatuto do Nascituro

16 lugares para buscar ajuda contra a violência

    

Falando de parto: diálogos nada secretos de mulheres e seus partos plurais

Tudo começou com a Gabi Bianco mostrando um vídeo lindo de parto em casa: http://potencialgestante.com.br/video-parto/.

Aí a Ana Carolina mostrou de novo o vídeo da Naoli, que a Letícia já tinha mostrado há muito tempo atrás.

Claro que para a nossa Renata Corrêa falar do parto domiciliar foi um pulo:

Aliás, o que colocou uma pulga atrás da orelha para eu correr atrás de um parto humanizado foi quando eu comecei a ver fotos de partos e pensei: nossa, por que essas minas ficam rindo depois de ter o bebê? Eu sempre imaginei que você ficava acabadaça, de tanto que visitei amigas e parentes pós-cesárea no hospital.

Não que mulheres que passaram por uma cesárea não possam ter experiências boas, eu acredito que todas possam. Mas aqueles sorrisos ficaram gravados na minha mente. O bebê sai e a cara da mulher… Enfim. Algum tempo depois, quando tive a Liz, eu entendi, porque passei por aquilo, o sorriso hormonal, a alegria que te inunda. A gente acha que sentimentos elevados vêm da alma e o corpo se manifesta. O parto é a festa do corpo, o sentimento nasce do corpo e só depois habita a alma. Quando a Liz tava saindo eu falei “nossa, que delícia!”. Sempre achei que ia doer. As mulheres relatam um tal de círculo de fogo, que é quando o bebê passa pelo períneo e arde. Eu não senti. Senti prazer mesmo. Foi a sensação mais incrível da minha vida. Uma experiência corporal e sensorial única.

Bom, depois eu vi as fotos do parto e eu estava lá recebendo minha filha com aquele sorriso calmo, tranquilão. Nem eu lembrava dele, mas ele tava lá. 😉 Em anexo a minha cara #xatiadissima após parir a Liz. rs

 

imagem30chegada_reeliz

 

Suzana Elvas:

Eu vou falar aqui uma coisa que nunca disse a ninguém: eu sempre me sinto humilhada (sem razão, eu sei) quando leio relatos sobre mães que pariram naturalmente. Eu tive duas cesáreas (a segunda porque meu útero ia se romper e minha filha sentou) e nunca experimentei esse sentimento sublime. Só queria que acabasse, só queria dormir.

E quando leio relatos lindos como esse da Renata eu me sinto tão, mas TÃO diminuída, tão inferior, tão menos que não dá nem pra descrever.

 

Renata: Putz, te abraço muito. Tem coisas na vida que são imprevisíveis, a gente não controla nada nada nada nada…

As suas filhas chegaram para você de uma forma cirúrgica, e daí? Que bom que existe a cirurgia, senão sua filha mais velha estaria órfã, hoje, sem mãe, nem irmã. É um saco a recuperação de cirurgia, sono, dor? É. Mas foi essa tecnologia que permitiu que vocês estivessem aqui, todas juntas.

Eu sou a favor de ressignificar essa experiência, entender onde te dói. Ir fundo, pegar a dor mesmo, olhar na cara dela. Porque parto não define a qualidade de uma mãe. Não define amor. Só define… o próprio parto!

Beijos e abraços mais que apertados, de todo o meu coração.

 

Gabi Butcher: O momento é sempre lindo… Não importa como acontece…

 

gabierebeca

 

Lanika: Eu lembro que quando eu tava na água tendo a Carmen e sentindo cada parte do meu corpo eu só conseguia sentir que aquilo sim era o certo, que era assim, que era sábio e todo o alívio do mundo desceu sobre mim quando ela saiu. Tudo que sei é que nunca me senti tão… Naturalmente eu, tão no controle, tão centrada. Nem dá pra explicar o quão diferente foi do parto do Gabriel, em que me anestesiaram e eu não conseguia identificar o que estava sentindo, sabe? Eu fui conduzida no parto do Gabriel, o da Carmen foi meu todinho.

Enfim, parto humanizado é a coisa mais linda do mundo inteiro 🙂

 

Lanika pra Suzana: não tem nada de pequeno nos teus partos. Tem que ver issaí, gata :***

 

Suzana para Lanika: Ah, eu sei, Lanika. Minhas filhas vieram do jeito que tinham que vir. Uma com uma cabeça tão grande que não passou pelo buraco da bacia (eu tentei e ela acabou nascendo com um galo na testa) e a outra tava sentadinha com duas voltas do cordão no pescoço.

 

Lanika pra Suzana 2: Su, meu primeiro parto foi normal mas foi tão desumanizado que me anestesiaram sem eu saber, fizeram episiotomia sem eu saber, não me mostraram a cara do meu filho (eu levantei do leito na marra enquanto estava sendo costurada pra poder pelo menos ver a cara dele por 2 segundos enquanto ele era levado pro berçário). Levei anos achando isso normal. Só entendi o quanto tiraram de mim quando a Carmen nasceu. Eu te entendo.

Mas a vida tem seus jeitos e cada cicatriz na alma da gente é de guerra, sabe? É pra gente ficar mais forte pra próxima.

 

Suzana Elvas: Enfim… Mas é aquela coisa, né? Uma experiência que não tem substituto. Não tem igual. E aí vem a onda do parto humanizado, do parto na água, do parto sem anestesia e você toma aquele caldo bonito, e acaba de fundilhos pra cima no meio da praia, todo mundo olhando você estabacada ali e dizendo “Tsc tsc tsc… Cesariana? Pois eu pari lindamente, senti cada centímetro do meu corpo brilhando numa dimensão além da compreensão humana, numa realização materna além do astral.” E você volta o olhar pra sua cicatriz, pras lembranças do seu sentimento de quero dormir, quem é essa criança que me empurram, por que eu não sinto nada por ela e cadê o momento sublime de que tanto falam. Pois foi isso que eu senti, lutando pra respirar porque a peridural subiu até o peito. Queria ir embora, queria parar de vomitar (fiz isso na sala de parto), queria respirar.

 

É uma coisa que eu trabalho há 15 anos, desde que minha filha mais velha nasceu. Quando engravidei pela segunda vez, pensei que tinha ganho uma segunda chance. Aí minha segunda menina cresceu e o meu útero começou a se rasgar. Eu eu tive que fazer cesariana. Esperei até entrar em trabalho de parto, mas nem assim.

 

Eu me sinto muito diminuída. Porque essa é uma experiência que eu, aos 47 anos, dificilmente vou passar nesta vida.

 

Flavia Mello (à beira de um parto no RJ): Aí gente. Morro de medo de parto normal 🙁 to rezando para não entrar em trabalho de parto, meu quadril já não esta agüentando..

🙁

#vergonha

Flavia

[enquanto a gente editava texto, cuidava de detalhes e talz, o Eduardo veio ao mundo]

Doduti: Que lindeza!

O Lucas também veio ao mundo através de uma cesárea e durante muito tempo (até hoje ainda me pego fazendo isso) eu logo que contava que havia sofrido uma cesárea já emendava os motivos, me justificando de que não foi uma cesárea eletiva, com data marcada. Nunca me senti menos mãe por isso, mas sempre senti que faltou um Q no meio de tudo isso.

Errei em não ter feito um plano de parto mais cedo, em não ter discutido cada detalhe do que eu queria com minha médica. A consulta em que eu ia fazer tudo isso estava marcada pro dia que ele resolveu que ia nascer, ainda na 34ª semana de gravidez.

Minha bolsa começou a vazar, mas não estourou de vez. Não entrei em trabalho de parto, não senti contrações, dor, nada… Mas eu estava super fragilizada, desesperada pelo parto ter adiantado e sem meu marido por perto (que só ia chegar do Japão em uma semana). Ele estava sentando e em nenhum momento eu questionei quando às *:00 da manhã marcaram minha cesárea de “emergência” para as 13:00.

Hoje quando paro para pensar, sei que podia ter insistido um pouco mais, mas lembro do meu desespero e sei que não estava preparada pra nada diferente. Brinco que se a médica dissesse que precisaria abrir meu crânio pra tirar o bebê por lá, eu aceitaria. Se tudo acontecesse hoje, eu provavelmente não teria coragem de encarar uma cesárea com um bebê pélvico e morrendo de medo por ser prematuro, mesmo tendo todo conhecimento que adquiri, imagino que não teria coragem de falar mais alto… mas brigaria pra não ser amarrada, pra poder amamentá-lo logo de cara, pra ninguém ficar esmagando minha barriga como se quisesse usar o fim da pasta de dente…

 

Choro cada vez que vejo um vídeo como esse. choro pela lindeza, pela emoção. Mas choro ainda pelo parto que eu poderia ter tido. Sei que estou errada, mas ainda estamos trabalhando =)

 

dodutielucas

 

Renata pra Flavia: Mas Flávia, trabalho de parto dura umas 10 horas no barato, muito raro casos que a mãe oops, entra em trabalho de parto e a PM, os bombeiros ou o taxista tem que fazer o parto. Você não vai ter seu bebê em qualquer lugar, relaxa. é até melhor você entrar em trabalho de parto porque isso mostra que o bebê está maduro para sair e o início do trabalho de parto não dói nada mesmo… só vai doer lá pros 5, 6 centímetros e isso pode demorar uma VIDA. (o meu tp da primeira contração até a liz nascer foram 26 horas)

 

Lu Freitas pra Flavia: olha, Flavia, a Renata já disse tudo, e vou te contar uma coisa, aprendida em 4 anos de redação de revista de grávida: primeiro trabalho de parto é NORMAL durar 36 horas.

entendeu? 36!!!

O que acontece, aqui do ponto de vista de observadora, é que a gente tem várias lutas pra vencer nesta hora:

1. contra o sistema que prefere a porra da cesárea, porque é mais rápida (é mais fácil pro médico também, mas não é o melhor procê, em geral)

2. contra si mesma/própria, porque passamos a vida inteira ouvindo que parto dói, que alarga, que blablabla whiskas sachê… E não confiamos, de jeito nenhum, naquele “cachorro” que chamamos de corpo…

E daí decorrem muitas outras coisas. Trabalho de parto (e trazer crianças ao mundo) é para fortes. E isso, Flavia, você já é. Porque coragem e consciência para trazer um ser humano ao mundo em que vivemos não é pra qualquer uma, não!

Força aí, fia, que tudo sempre dá certo – parto não é doença, apesar do que os médicos nos tentam impingir a todo custo.

 

Renata Correa: Loura e maquiada segurando o rebento. Lembrei da novela Salve Jorge que a menina fugiu para parir numa caverna na turquia e tava escovada com cachos depois que o bebê saiu! 😀

 

Renata para Flavia: não tenha medo. Salvo raríssimas exceções seu corpo foi feito pra isso. E ninguém precisa recusar a analgesia e parir em casa. Existem partos humanizados muito lindos com anestesia. Aliás pra toda grávida eu recomendo o livro “Parto com Amor”. Aliás, a história por trás desse livro é maravilhosa – só para vocês terem uma ideia de como nosso mercado editorial é careta e nós todos somos uma sociedade moralista o livro se chamava desde de seu projeto “parto com prazer”, mas a editora sugeriu gentilmente que parto com prazer daria xabu e sugeriu parto com amor.

 

Esse livro tem fotografias de partos: hospitalares, domiciliares, a seco, na banheira, fotos liiiiiiindas e descrição de todos os procedimentos, dá uma super tranquilizada, desmitifica, tem evidência científica em poucas linhas pra leigos mesmo. O projeto gráfico é lindo e a informação é de qualidade.

 

Achei no buscapé por R$ 37 dinheiros: http://compare.buscape.com.br/parto-com-amor-luciana-benatti-marcelo-min-8578881052.html#precos

 

Lanika: Flávia, é normal ter medo do parto normal do primeiro filho. Mas, olha… Da minha primeira contração (que foi “ih, uma contração”) até o Gabriel nascer foram 18 horas. Nesse meio tempo eu virei pro lado e dormi (eram 23h), acordei, tomei café, esperei um tempo, aí 8 da manhã informei minha família que tava em TP e fui pro hospital e fiquei de saco cheio de ficar lá o dia inteiro até que a dor começou a ficar forte lá pro meio da tarde quando foi chegando a hora dele nascer.

Não vou mentir. CLARO QUE DÓI nas horas finais. Mas pra mim foi pior com anestesia porque no parto humanizado eu tive como direcionar aquela dor pra expulsão e com a anestesia eu não sabia a hora de empurrar ou relaxar e me senti completamente confusa.

E é muito importante lembrar: dói, mas na hora em que o bebê nasce a carga hormonal que você recebe lava a dor todinha. É o maior alívio do planeta, proporcional à força que tu fez antes. Não é uma dor sem recompensa.

Eu não conheço uma grávida sequer que não tenha medo da dor do parto, que não queira voltar atrás, que não pense “o que eu tô fazendo, onde eu fui me enfiar?” e é absolutamente normal. Quem disser que não tem medo tá escondendo o jogo. Pelo menos uma vez lá com a cabeça de madrugada no travesseiro todo mundo tem medo, seja o primeiro ou décimo filho.

 

Renata: o Ric Jones, um obstetra humanizado de Porto Alegre (saibam mais aqui: http://vilamamifera.com/mulheresempoderadas/perfil-ricardo-jones-um-obstetra-humanizado/) fala que parto é tão assustador pois congrega os dois maiores temores da humanidade: a mortalidade e a sexualidade. Juntou essas duas coisas ficamos apavorados, queremos fazer de tudo para controlar algo que a priori não precisa de controle e funciona muito melhor se não for controlado mesmo.

 

Manu Mitre: O livro que a Renata falou (Parto com Amor) mudou minha vida. Eu sempre achei que parto normal era o óbvio, mas uma amiga viu que eu estava pra cair na armadilha dos médicos-bonzinhos-que-acabam-fazendo-só-cesárea e me deu o livro de presente. Tive certeza de que eu queria um parto não somente normal, mas do meu jeito, com respeito, com autonomia e liberdade. Sem rótulos, sem protocolos, sem procedimentos padrão, mas algo único, assim como eu sou, como meu parto e minha filha seriam. Tudo do jeito que faria sentido pura e exclusivamente para aquela situação.

Estudei muito, muito, mesmo. Não queria cair em uma lavagem cerebral inconsequente, queria fazer escolhas conscientes e com base na razão. Procurei evidências científicas que me ajudaram a tomar e manter decisões difíceis – tipo a de não ser anestesiada. E conversei com muitas mulheres, de longe a maior fonte de motivação, a melhor forma de descobrir como canalizar os medos e espantar os fantasmas que nossa cultura enfiou nas nossas cabeças.

E por causa da importância de toda essa ajuda que recebi, me sinto em dívida eterna com as mulheres que querem um parto normal. Antes aprendíamos tudo com a tia parteira ou com a avó que teve 9 filhos em casa, com as tantas mulheres que passaram pela experiência de ter um filho naturalmente. Quantas podem falar disso hoje em dia? Se eu posso, me sinto nesse dever. Sou disponível, ensino o que sei, indico gente em que confio, mostro alternativas que façam sentido para cada mulher. Respeito as que preferem outro tipo de experiência (ou que realmente precisam de uma intervenção cirúrgica) porque também aprendi que o mellhor parto é aquele que cada mulher não somente quer, mas pode ter.

E aqui meu relato de parto, algo que me faz soluçar de chorar até hoje, 1 ano e 8 meses depois, já com outro bebê na barriga:
http://casamoara.com.br/meu-mundo-minha-dor-meus-limites-um-parto-do-meu-jeito/

 

As indicações reais de cesárea

No post foram citados alguns casos onde a cesárea foi indicada pelo médico.

Bebê que não passa pela bacia – o nome disso é Desproporção Céfalo-Pélvica. É uma complicação rara e só pode ser identificada no trabalho de parto ativo depois que a mãe já alcançou a dilatação total. Não existe diagnóstico de desproporção antes do trabalho de parto, usando o tamanho do bebê como justificativa. A desproporção céfalo-pélvica é uma intercorrência multifatorial e tem muito mais a ver com a posição distócica de encaixe do bebê do que com o tamanho dele em si.

Útero rasgando – a ruptura uterina é uma intercorrência raríssima. O risco de ruptura uterina é 0,2% maior em mulheres que tiveram uma cesárea anterior, mas ainda assim maior fator de risco é a má formação uterina. Só é possível identificar uma ruptura uterina em trabalho de parto, não é possível diagnosticar que o útero está se rompendo antes do trabalho de parto começar pois são as contrações que contribuem para ruptura. Aumenta consideravelmente o risco de ruptura o uso abusivo e inadequado de ocitocina sintética intraparto (o famoso “sorinho”), então a melhor prevenção para ruptura é que o parto aconteça com o menor número de intervenções possíveis.

Não dilatarnão existem mulheres que não dilatam. Toda mulher dilata, algumas levam mais tempo, outras menos. Quando o trabalho de parto ativo para de progredir o médico avalia a mulher e pode intervir com aplicação de anestesia ou rompimento da bolsa, para que o trabalho de parto normal continue.

Ruptura da bolsa sem sinal de trabalho de parto: é recomendado repouso, hiperhidratação e monitoramento cardíaco do bebê e esperar o trabalho de parto começar naturalmente. Geralmente o trabalho de parto começa em até 24h depois da bolsa ter se rompido, mas a literatura médica já relatou casos de sete dias. O líquido amniótico é produzido constantemente pelo corpo, o bebê não fica “seco” dentro do útero.

Bebê Sentado – É o famoso bebê pélvico. pode ser indicação de cesárea ou não. Existem poucos médicos que acompanham partos normais de bebês sentados. Com acompanhamento correto é um parto normal seguro. Porém a cesárea também é uma conduta indicada.

Fonte: Indicações reais de cesárea (com evidências): http://estudamelania.blogspot.com.br/2012/08/indicacoes-reais-e-ficticias-de.html

Slide Share do Projeto Diretrizes da Febrasgo: http://www.slideshare.net/priscilacaixeta1/febrasgo-cesareana-indicao

Indicações reais e fictícias: http://renatacorrea.com.br/listados9/quando-uma-cesarea-e-uma-cirurgia-realmente-necessaria/

Vagas para tratamento de mulheres dependentes em álcool ou drogas no PROMUD

Meninas, esta é uma dica de utilidade pública total. Nossa querida @CarladoBrasil trouxe a dica e nós compartilhamos. Divulguem!

mulheres: álcool e drogas / imagem de chandrika221 no flickr

O Programa da Mulher Dependente Química (PROMUD) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP esta com vagas abertas para mulheres dependentes de álcool e/ou drogas, maiores de 18 anos e residentes na grande São Paulo.

O PROMUD é um serviço multidisciplinar, e sua equipe é composta por: psiquiatras, residentes de psiquiatria, psicólogos, estudantes de psicologia, nutricionistas e advogada. Foi  fundado em novembro de 1996, como um programa de tratamento para o atendimento exclusivo de mulheres com diagnóstico de Transtorno de Dependência de Substâncias Psicoativas. O ambulatório compõe um dos serviços especializados oferecidos pelo Departamento de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, funcionando em seu Complexo Central, situado no Bairro de Cerqueira César, Zona Central de São Paulo.

Para agendamento, basta ligar de segunda a quinta das 09:00 às 11:00 horas e falar com Iracema no telefone: 11-3082.1876. Maiores informações podem ser obtidas no site: www.mulherdependentequimica.com.br ou através do e-mail: promud.ipq@hc.fm.ups.br

PROMUD – Instituto de Psiquiatria – Hospital das Clínicas
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
Rua João Moura, 647 – cj. 191
05412-911 – São Paulo – SP
Tel/fax: 11-3082.1876
E-mail: promud.ipq@hc.fm.usp.br
Site: www.mulherdependentequimica.com.br

*Photo Credit: chandrika221 via Compfight cc

Reconstruindo a democracia no Brasil – um plano de cinco ações

Depois de semanas de protestos em todo o país, a presidenta Dilma Rousseff finalmente anunciou sua resposta. Após encontro com manifestantes, ela anunciou a intenção de um plebiscito cujo mote é uma reforma política no país, além de um pacto que em seu bojo inclui cinco promessas para o povo brasileiro. O pacto se concentra em cinco áreas – reforma política, responsabilidade fiscal, além de investimentos adicionais nas áreas da saúde, transporte e educação.

Dilma ofereceu ao povo a oportunidade de decidir como a reforma deve ser realizada, através de um plebiscito – isso provavelmente dará alguma chance ao povo de usar o voto para direcionar e priorizar a atenção dos políticos.

Mesmo após este anúncio, os manifestantes continuaram com os protestos, dizendo que as propostas da presidenta são desprovidas de medidas concretas. Isso não é nenhuma surpresa: o problema, na verdade, é que um verdadeiro impasse entre o governo e o povo foi estabelecido.

Os manifestantes – e os cidadãos em geral – querem resultados imediatos. Para a presidenta oferecer um plebiscito e imediatamente “achar” bilhões de reais para a saúde, educação e melhorias no transporte público não deve ter sido fácil, mas mesmo assim é uma solução que existe dentro das regras da política que conhecemos hoje.

É fato que o povo brasileiro está farto de promessas. E mesmo os partidários de Dilma querem ouvir algo que vá além de chavões políticos. A presidenta precisa encontrar algo mais concreto para oferecer à população rapidamente – porque a revolução está, genuinamente, no ar.

O exército já até colocou o juiz Joaquim Barbosa sob a sua asa. Proteção constante foi oferecida para assegurar que nada irá acontecer com ele, o qual, por sinal, é muito popular por conta de sua origem humilde e do papel fundamental que teve no Mensalão. Tanto isso é verdade, que muitos estão sugerindo que ele deve ser o próximo presidente – sem nem se preocupar em esperar a próxima eleição presidencial no ano que vem.

Barbosa não declarou querer ser o novo líder de um governo militar. Mas o problema é que as pessoas querem uma mudança a qualquer custo – prova disso são os milhares de brasileiros que protestam nas redes sociais e nas ruas, que parecem querer dizer que um governo militar seria a melhor opção – e eles podem muito bem estar caminhando cegamente em direção a um novo Brasil, onde a democracia será apenas uma memória.

Até agora, houve três décadas de democracia, mas o nosso sistema, como é hoje, nada mais é do que uma fonte interminável de exasperação diária. A maioria dos nossos líderes políticos parecem ser ricos, ou bem relacionados, ou terem parentes em alguma posição de poder. Não é possível que uma plutocracia de fato exista, em que ricos e pobres têm apenas um único voto obrigatório, quando os pobres são marginalizados e desiludidos e só os ricos podem sempre obter o que querem.

Será que o sistema político do Brasil precisa de um choque?

Acredito que algum tipo de choque seja necessário, mas querer o impeachment de Dilma Rousseff é demais! Aliás, já existe um sistema para substituir políticos com os quais o povo está insatisfeito – eleições. O presidente Fernando Collor de Mello foi cassado em 1992 após protestos populares, mas isso foi devido a evidências de corrupção e desvio de fundos do Governo. Ele era um bandido, e não apenas um líder impopular.

O que Dilma poderia oferecer ao povo para acabar com essa desinformação, desconfiança e protestos sem fim? Em vez de um pacto com cinco promessas vagas, sugiro aqui cinco ações muito claras e diretas que podem ser colocadas em prática imediatamente:

1. A presidenta sugeriu um plebiscito para decidir sobre as prioridades para o país. Esta é uma ideia que deve ser introduzida para tratar de TODAS as grandes decisões que afetam a sociedade civil, e as pessoas devem decidir diretamente sobre a solução de problemas que afetam a sociedade em geral, tais como o polêmico Estatuto do Nascituro, ou lei do aborto, ao invés de deixar as decisões nas mãos de um grupo de políticos que podem não representar as necessidades da sociedade como um todo.

A política formal brasileira está recheada de grupos de interesse, particularmente cristãos e evangélicos. Ninguém negará a qualquer pessoa o direito de ter sua religião, mas há ocasiões em que é difícil confiar na democracia representativa devido aos políticos serem associados a um grupo de interesses específicos.

Se o público pode tomar decisões sobre questões sociais com um plebiscito em que todos têm um voto, isso removeria o viés de líderes políticos religiosos. É também um passo importante na direção da criação de um estado laico.

2. Ninguém aqui confia no governo, ou na FIFA, no que diz respeito ao custo real da Copa do Mundo. Uma equipe de acadêmicos independentes poderia estudar as finanças do evento, o papel prático da FIFA e do governo, bem como o patrocínio de empresas envolvidas.

Uma perspectiva independente e transparente sobre as finanças do evento, produzida por acadêmicos, a qual também destacasse os benefícios em termos de criação de empregos e infraestrutura, criaria uma imagem verdadeira e equilibrada do quanto este evento realmente está custando para o Brasil: os prós e os contras.

3. Criar um novo código de conduta para todos os políticos eleitos, ao qual os mesmos devem aderir o desde o primeiro dia no trabalho. Todos os representantes eleitos, de vereadores ao presidente, tem que trabalhar com base nesse código, que tem como base a transparência.

Representantes eleitos devem também publicar detalhes de seus rendimentos, declarações fiscais, participações em empresas e seus compromissos, de forma que fique facilmente acessível ao eleitorado. A ênfase tem de estar no fato de que os representantes são eleitos para representar o povo.

4. Criar um novo programa de educação política e cívica para todas as escolas do país. Isso existia quando eu era criança, em duas disciplinas distintas – OSPB e Educação Moral e Cívica –, que faziam parte do currículo escolar, mas que foram extintas. Todo aluno, toda criança e adolescente de qualquer classe social deve saber o que o prefeito e seus representantes locais fazem, em todos os sistemas de governo – da política local até o governo federal em Brasília – de uma forma compreensível e direta.

Recomendo que professores peçam que as crianças conversem com seus pais sobre uma questão local, como, por exemplo, a qualidade das estradas ou do hospital local, por exemplo. As crianças podem, então, entrar em contato com os políticos locais tendo como foco um problema real. A democracia pode ser vista em ação – ou não – desde cedo.

5. Os protestos no Brasil inicialmente começaram por conta dos custos do transportes públicos. Mas líderes locais, como o prefeito Fernando Haddad em São Paulo, estão tentando usar o orçamento local para melhorar o sistema de transportes. Mas São Paulo por si só é responsável por quase 13% de todo o PIB do Brasil. Junte a isso outras grandes cidades do Sudeste, para constatar que uma enorme porção do produto nacional está sendo criado nestas cidades.

É hora de o governo federal começar a fazer cheques para os prefeitos das grandes cidades, para permitir que melhorias em sistemas de Metrô e trem realmente deslanchem, pois já foi provado que o modelo atual simplesmente não é suficiente para financiar tudo.

Esse é o meu plano de ação. Será que a presidenta Dilma vai me ouvir?

Como muitos, também não estou contente com o estado atual do Brasil e até mesmo participei de manifestações nas ruas. Mas também vejo que ambos, manifestantes e presidenta, precisam de algo mais concreto, além das promessas vagas feitas até agora.

Propostas como os cinco pontos listados acima não são radicais e, ainda assim, respondem às principais preocupações do movimento de protesto: De onde sai o dinheiro para a Copa do Mundo? Por que não consigo obter qualquer representação dos políticos que ajudei a eleger? Por que as crianças no Brasil não tratam os políticos como pessoas eleitas para servi-las? Como se pode manter grupos de interesse fora das grandes decisões sociais? Como podemos melhorar a infraestrutura do país?

Amo meu país, e detestaria que perdêssemos a democracia que só conseguimos há três décadas. Mas a democracia que temos no momento ainda está em construção. É hora de arregaçar as mangas e começar a trabalhar para mudar o Brasil.

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