“Dirija que nem homem” disse meu pai enquanto me ensinava a trocar as marchas. Longe de ser um comentário machista, ele na verdade queria dizer que eu deveria encarar aquela situação de forma racional e decidida. Utilizar mais o lado objetivo do meu cérebro e menos o lado sensível. Mais razão e menos emoção.

Eu cresci com muitos meninos em volta, principalmente meu irmão e meus primos. No caso do meu irmão, inúmeras foram as vezes que tive que brincar de Barbie no castelo de Grayskull. Não sei se alguém de vocês já tentou fazer isso, mas existem alguns fatores engraçados nessa modalidade. Um deles é que a Barbie, do alto de seu 1,75m de altura, é bem maior que o He Man. Se eles tivessem que formar um casal, ele seria o baixinho cotoquinho da relação. Ou seja, enfiar a Barbie no castelo de Grayskull era uma tarefa árdua, numa casa com teto pequeno e espaço suficiente para alguém do tamanho do He Man.

Para piorar, o castelo tinha uma alavanca que, ao ser puxada, abria um tapete e fazia com que o “inimigo” caísse no andar abaixo. Oras, para a brincadeira acontecer, o embate teria que ser entre eu e meu irmão. Barbie X He Man. E na hora que ele puxava a alavanca, a Barbie ficava presa no vão do tapete, com os braços entalados, sem conseguir sair por baixo ou por cima.

Metáforas a parte, acho que é justamente disso que estamos falando. De uma mulher que ainda não sabe se cabe ou não em todas essas casas. Que ainda se sente desengonçada batendo a cabeça no teto, mas que tem vontade de ficar passeando por lá. Que está entendendo onde e como pisar no castelo de Grayskull sem danificar o esmalte ou ser julgada por se preocupar com isso. Esquizofrênica ou não, hoje posso dizer que dirigir que nem homem pode ser bom. Mas dirigir que nem homem com salto, meia-calça e batom é melhor ainda.