A violência infelizmente está espalhada pelas grandes cidades. Porém, homens e mulheres vivem, sentem medo e enfrentam experiências e restrições diferentes. Mulheres sentem muito mais medo do assédio e da violência sexual, seja de dia ou de noite. Há desde preocupações com o assédio sofrido nos transportes coletivos até a preocupação com estupros que limitam a mobilidade das mulheres e reduzem seu acesso a espaços públicos. Porém, o pior é saber que muitas vezes as mulheres são culpabilizadas pela violência que sofrem. Foi roubada? Quem mandou passar naquela rua escura a essa hora? Milhares de mulheres são obrigadas a voltar para casa tarde da noite porque trabalham ou estudam. Foi violentada? Quem mandou sair de minissaia ou com essa roupa indecente? Quem mandou ficar bêbada? Nenhuma dessas atitudes é um convite ao estupro.

Woman on Subway. Foto de Ronn aka Blue Aldaman no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

No texto “Cidades mais seguras para mulheres”, Renata Neder, da ONG internacional Action Aid, discute a segurança das mulheres nas cidades do mundo, pontua questões que contribuem para a insegurança e fala sobre o que está sendo feito em alguns países:

É muito comum que meninos comecem a andar sozinhos pela cidade muito antes das meninas, ou que rapazes voltem para casa de ônibus de madrugada enquanto as adolescentes preferem os taxis ou a carona de um dos pais. Mulheres sentem medo de praças vazias, de ruas desertas, de becos escuros, de transporte público, com muito mais frequência que os homens. E, por isso, internalizam no seu cotidiano diversas práticas ou restrições que as fazem sentir mais seguras. Fazemos isso com tanta naturalidade que nem nos indignamos mais com o fato de, na prática, não exercermos os mesmos direitos que os homens no acesso à cidade e vivência da vida urbana.

Não é certo delegar às mulheres a responsabilidade por sua segurança. As cidades devem ser seguras para as mulheres, e Estado e sociedade devem garantir isso.

É fundamental garantir a segurança das mulheres e sua mobilidade nos espaços públicos e privados. E segurança, neste caso, não tem a ver apenas com não-violência, mas com todas as decisões que muitas vezes as mulheres são forçadas a tomar (a respeito de uma roupa ou de um trajeto, por exemplo) por medo e por insegurança.

As cidades seguras também dizem respeito aos estereótipos sócio-culturais e pressupostos a respeito do “lugar” da mulher na sociedade e na cidade. Ideias que ditam o que é apropriado ou não para uma mulher. Para tornar uma cidade segura para as mulheres, é fundamental questionar essas ideias construídas e estabelecidas.

As cidades brasileiras são seguras para as mulheres? Como nos sentimos no ônibus ou no metrô lotado? É apenas a sensação de que estamos numa lata de sardinha ou torcemos o tempo todo para que ninguém passe as mãos por nosso corpo? Quando estacionamos o carro à noite na rua ou quando voltamos para pegá-lo, temos medo apenas de um assalto ou de que a pessoa nos leve para um lugar ermo e nos ameace? Nas ruas movimentadas dos grandes centros, as mulheres podem caminhar livremente sem serem abordadas com palavras agressivas de quem a deseja com os olhos? No ponto de ônibus vazio, quando alguém vem abordá-la, como você se sente? Ao contratar um serviço para ir até sua casa você toma alguma precaução? Quando fica bêbada num bar ou na boate, você já escapou de alguma situação de abuso? Quantas vezes você já soube de casos de estupro próximos da sua faculdade?

Pensar em cidades mais seguras para mulheres não passa apenas por mudanças na infraestrutura. Isso é o básico, é preciso ir além e questionar os pressupostos sociais e culturais a respeito do que é considerado o “lugar” adequado para a mulher na sociedade e, consequentemente, na cidade.  É necessário que as mulheres sejam vistas como cidadãs, com direitos que devem ser respeitados ao invés de culpá-las pelo tamanho da saia que usam.