Eram quatro mulheres no total. Duas brasileiras e duas turcas. As brasileiras estavam curiosíssimas a respeito daquele lenço na cabeça. Será que era muito quente? Será que incomodava ficar com aquilo o dia inteiro? Será que usavam por vontade própria? A barreira da língua parecia impedí-las de começar um diálogo. Estavam, duas a duas, sentadas no pátio de uma mesquita, em Istambul. Apenas se olhando, como quem não quer nada, no frio do mármore e no quente do sol.

As turcas então se aproximaram. Perguntaram se poderiam fazer uma entrevista conosco. Sim, claro! Disseram ser estudantes de turismo com uma lição de casa: entrevistar estrangeiros e ver o que eles pensam do seu país. Respondemos, rimos e filmamos. Contamos nossas primeiras impressões sobre a Turquia muçulmana. Mesquitas gigantes e lindas, história da humanidade borbulhando, cheiro de amêndoas queimadas aos pés da melancolia do Bósforo. Peixe, pimenta e tomate. Povo solícito e mulheres… cobertas. Elas sorriram e terminaram a entrevista. Agradeceram e foram embora.

Nos encontramos do lado de fora da mesquita, numa comemoraçãoo popular na qual as crianças encenavam danças típicas. Ataturk havia criado o dia da criança e, nele, os pequenos eram celebrados publicamente. Bem bonito de ver. Trocamos olhares com nossas amigas e elas se reaproximaram. Se ofereceram para serem nossas “guias turísticas” por algumas horas. Aceitamos. Não sei ao certo o que nos motivava mais: o fato de ter nativos mostrando o país ou o fato de finalmente podermos perguntar a respeito do lenço.

Entre as ruas de pedras conversamos sobre tudo. Impressionante como mulher consegue aprofundar as histórias em menos de 5 minutos de convivência. Uma delas, a mais tradicional, estava procurando namorado. Usava saia e lenço. Dizia usar porque queria. Porque acredita que aquilo tem uma função social e, que no fundo, achava inclusive charmoso. Preferia os de seda, mais brilhantes. A outra era mais liberal – no sentido ocidental da palavra – e usava calça jeans e lenço na cabeça “somente quando estava em casa”. Disse que não queria namorar, que havia crescido para ser livre. A outra só respondia “não quer namorar POR ENQUANTO”. Enquanto caminhávamos em direção a uma casa de chá, conhecíamos duas meninas tão parecidas quanto nós. Com as mesmas dúvidas. Com as mesmas indagações. Com os mesmos dilemas. E nessa hora percebemos que aqueles tecidos nada mais eram do que representações plásticas de um outro tipo de lenço: o invisível.

Qual é o teu lenço?