Bonitinha. Está simplesinha, mas bonitinha.

Ela me disse isso assim, de repente, no meio da rua. Nunca a havia visto antes. Seus seios, grandes e sem sutiã, me chamaram a atenção. A camiseta estava larga e suja, a calça também. Morava na rua e, justamente quando eu passei, ela disse isso.

Agradeci o elogio e continuei andando, pensando em quantas vezes na vida recebemos um comentário alheio sem ter pedido. Ao mesmo tempo em que meu raciocínio voou entre pensamentos como “sim, eu realmente sou um para-raios de maluco”, “nossa, ganhei uma personal stylist na rua” e “é verdade, é simples mas é bonito”, ouvi o término de sua fala:

Posso falar do seu vestido pois, quando eu era gente, eu desenhava roupas.

Quando eu era gente. Ela disse isso com um certo tom de normalidade, com a mesma intenção que formulou a frase a respeito do meu vestido. A mesma frase que me taxava como simplesinha mas bonitinha lhe tirava o primordial para um ser humano se considerar gente: a identidade. A partir de que momento ela deixou de ser gente? A partir de que momento ela deixou de desenhar vestidos? A partir de que momento ela passou a se vestir com roupas que não lhe cabem? Ou melhor, a partir de que momento aquele ser humano deixou de ser mulher para tornar-se não-gente?

A realidade muita vezes aparece no meio da rua, assim, gratuita. Simples como o meu vestido. Nem sempre tão bonitinha.