Minha avó era um ser humano caricato. Do alto de seu 1m50, estava sempre elegante. Perder a pose, jamais. Seus olhos, dois faroletes azuis, brilhavam acima do horizonte. Mal posso contabilizar quantas horas passei me perdendo em seu armário. Tudo tinha cheiro de Europa. Tudo tinha textura de Europa. Mas, pra mim, era simplesmente o armário da minha avó.

Era uma mulher muito dura. Sobrevivente de guerra, viveu no Gueto de Varsóvia, antes, durante e depois do levante do gueto. Amargava as histórias daquela época e não abria o jogo. Preferia não conversar sobre esse período, embora conservasse marcas típicas de quem passou por aquilo. Jogar comida fora? Jamais. Lembro, ainda criança, de ver a minha avó guardando na geladeira um saquinho de chá usado, porque chá bom dava para duas xícaras e poderia ser utilizado um tempo depois. Achava aquilo tudo esquisito, mas minha normalidade em relação ao mundo pós-guerra simplesmente não incitava muita indignação.

Jogava tranca com as amigas. Chegavam, cumprimentavam-se em polonês, tomavam um chá e chegava a hora da toalha de veludo verde. Eu ficava ao lado, na altura da mesa, sentindo-me privilegiada por poder ver as cartas de todo mundo. Em meio ao laquê, em meio ao Chanel 5 (sim, tudo tinha cheiro de Europa), em meio aos braços tatuados, eu passava tardes e mais tardes por lá. Afinal, era simplesmente a casa da minha avó.

Faço parte de uma das últimas gerações que teve contato com quem viveu a guerra. O mais louco de tudo é que eu só consegui me dar conta disso mais velha, quando finalmente entendi a grandeza da guerra. Criança, eu sempre achei a minha avó meio de mal com a vida, meio amarga, meio negativa. Mal sabia eu, na alegrias dos momentos do carteado, que a reunião daquelas mulheres na mesa só aconteceu por conta de um outro jogo, muito mais sujo.

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Na foto, minha avó no Gueto, em 1941. Foto do arquivo do Museu Yad Vashem.