Embora seja um assunto para lá de delicado e com argumentos válidos para todos os lados existem várias afirmações contra a legalização do aborto que eu gostaria de comentar: são os pensamentos dogmáticos à respeito do assunto. Um dogma não precisa estar necessariamente ligado à uma religião, e sim à uma ideia que é difundida sem aprofundamento.

A legalização do aborto é, antes de mais nada, uma questão de saúde pública. Essa é a parte que não se discute pois é baseada em fatos e dados – independente de nossas crenças pessoais à respeito do aborto, estamos falando da descriminalização e da legalização pelo bem da saúde das cidadãs. O assunto é também uma questão de direitos da mulher. Essa parte se discute – afinal vivemos em uma sociedade ainda machista, patriarcal e, principalmente, hipócrita.

Fiz uma rápida busca no Search do Twitter para captar alguns desses dogmas e “ilustrar” alguns mitos. Vamos a eles:

1. Se legalizarmos o aborto iremos viver uma carnificina

Tweet – “ñ podemos liberar o aborto a Bel Prazer,deve existir regras,senão vira carnificina”

Não é à toa que essa frase sai na maioria das vezes da boca dos homens: eles não sabem que o aborto não é e nunca será usado como método contraceptivo. Mulheres que já realizaram ou que conhecem quem já realizou um aborto sabem muito bem que fazer isso é traumatizante e dolorido (de corpo e alma.) E nenhuma mulher quer passar por isso “a Bel Prazer.” O aborto só é realizado pois o trauma e a dor de manter uma gravidez/maternindade indesejada é ainda maior.

A legalização do aborto não irá fazer com que o aborto vire rotina na vida da mulher: somente irá fazer com que os abortos que já acontecem na ilegalidade passem a acontecer com mais segurança. Só diz que a legalização do aborto resulta em carnificina quem não tem o menor conhecimento de causa.

2. Legalizar o aborto é ir contra os direitos do feto

Tweet – “Fulana falou que a criminalização do aborto eh uma violência CONTRA A MULHER! #louca”

Cynthia Semíramis resumiu bem esse dogma neste post, de onde tiro a citação:

“Ao fazer isso [afirmar que o aborto é uma violência contra o feto], estão invertendo a ordem de prioridades: colocam um não-nascido como tendo prevalência sobre uma pessoa viva, como se a mulher tivesse menos direitos que ele.”

A criminalização do aborto é sim uma violência contra a mulher!

A violência indireta é permitir uma gravidez não planejada, uma família sem estrutura e um futuro incerto tanto para a mulher quanto toda sua família. A violência direta é realizar o aborto de forma clandestina e ter como resultado a morte.

3. Eu sou contra, então não é correto legalizar

Tweet – “aborto sou contra, E MUITO! quem faz isso tem que morrer, serio!” [contraditório, não?]

Se sua religião ou moral próprias não julgam ser correto realizar um aborto a solução é simples: não realize um! Querer que a sociedade inteira acate é imposição ao todo de uma opinião pessoal.

Estamos tratando de Políticas Públicas que vão muito além da situação de um indivíduo. Estamos falando da saúde e do funcionamento social de toda uma população. Se você acha errado, não faça.

4. Minha religião não permite

Tweet – “Como que alguém que se diz cristã afirma que “aborto” é problema de saúde pública?”

Embora pareça em algumas passagens não estou aqui para atacar nenhuma religião. Inclusive não tenho nada contra nenhuma delas! O problema é querer que todo um país siga as suas crenças. Lembre-se: o estado é laico e sua função é proteger seus cidadãos. A legalização do aborto está aí para isso: proteger as cidadãs. A sua crença não pode interfirir no direito de outros indivíduos.

Mais uma vez: quem não quer fazer, não faz. Se o aborto é proibido na sua religião, não o faça.

5. Temos outras coisas para nos preocuparmos

Tweet – “Eu acho que tem coisas muito mais importantes a se debater do que legalização do aborto hein? Coisas mais básicas, tipo educação, segurança.”

A questão do aborto é sim prioridade. A consequência de abortos mal realizados é a morte. Você sabia que abortos mal realizados são o terceiro motivo de morte entre mães no nosso país? Será que realmente não é uma prioridade?

Mas a legalização do aborto também tem tudo a ver com todas as outras esferas e prioridades da sociedade.

Pense em uma mulher pobre. Por ser pobre ela já faz parte do problema educação, tanto por não poder ter educação de qualidade quanto por não poder oferecer isso à sua família. E a segurança? Precisamos de segurança pois existe violência. E a violência vem de uma sociedade com indivíduos pobres que não têm outra opção além de viver com a violência. Crianças que nasceram em uma família sem condições de oferecer-lhe uma vida digna e por isso recorrem à violência, sua única opção.

Neste mesmo molde também escuto o apelo: “temos que falar mais dos métodos anticoncepcionais para que o aborto não seja necessário!”

É fácil falar de métodos anticoncepcionais quando somos de uma classe cheia de informação. Acontece que as maiores vítimas de complicações em abortos clandestinos são justamente aquelas sem informação e sem acesso aos métodos contraceptivos.

1. Saiba mais neste vídeo completíssimo da Universidade Livre Feminista: http://vimeo.com/15358185

2. Quer saber informações históricas sobre a questão do Aborto? Leia: http://sindromedeestocolmo.com/archives/2010/09/o_aborto_na_his.html/